Texto: Luiza Muradas (@luizamuradass)
Revisão: Bia Martins (@bibbia.png)
Design: Cintia Paz (@cintpm)
São Paulo, 15 de maio de 2026
A Coreia do Sul vive um paradoxo que desafia economistas e sociólogos.
Ao mesmo tempo em que consolida sua posição como uma das maiores potências tecnológicas e culturais do planeta, o país enfrenta uma ameaça silenciosa à sua própria existência de longo prazo: o colapso demográfico.
Com uma taxa de fertilidade que caiu para o mínimo histórico de 0,72 filhos por mulher, a sobrevivência do modelo econômico sul-coreano entrou definitivamente na pauta política de Seul.
Essa realidade colocou em xeque o tradicional sistema corporativo do país. Conhecida pela dedicação extrema e por jornadas exaustivas que historicamente sustentaram o crescimento do país no pós-guerra, a cultura de trabalho local passou a ser apontada por especialistas como um dos principais fatores para que os jovens optem por adiar ou abrir mão do casamento e dos filhos.
O Impasse das 69 Horas
Fonte: BBC
O cenário político ganhou contornos dramáticos quando a administração do presidente Yoon Suk-yeol propôs uma reforma trabalhista para flexibilizar o teto da jornada semanal.
O plano pretendia permitir que as empresas aumentassem o limite de 52 para até 69 horas em períodos de alta demanda. A justificativa econômica do governo defendia que a medida daria dinamismo às indústrias, mas a proposta gerou uma onda de indignação generalizada.
Liderada por novas organizações sindicais independentes, como a All-Pro Youth Union (popularmente conhecida como a união da Geração MZ), a juventude sul-coreana se mobilizou contra o projeto.
Os protestos massivos argumentavam que o aumento das horas agravaria os problemas de saúde mental e reduziria drasticamente o tempo de convivência familiar. Diante da forte resistência popular e da rejeição em massa dos eleitores jovens, o governo recuou e engavetou o projeto.
As Brechas Oficiais e os Chaebols

Fonte: Folha – UOL
O recuo político mudou a estratégia governamental, mas não a lógica do sistema produtivo. Para conter as críticas e responder ao esgotamento público, o Ministério do Emprego e Trabalho passou a discutir novas diretrizes e ferramentas de fiscalização contra o chamado sistema de salário abrangente, um modelo de contrato muito utilizado pelas corporações para embutir horas extras fixas e mascarar o trabalho não pago.
A prática cotidiana, porém, expõe a permanência da mesma mentalidade. Para contornar a rigidez da lei de 52 horas, grandes conglomerados econômicos, os chamados chaebols, a exemplo de divisões da Samsung Electronics e da SK Hynix, recorrem massivamente ao mecanismo de Autorizações Especiais de Extensão de Jornada.
Esse dispositivo legal, validado pelo próprio Ministério do Trabalho sob justificativas de picos sazonais de produção, desenvolvimento de projetos urgentes ou cumprimento de metas de exportação, permite que as empresas estendam legalmente os turnos dos funcionários, esvaziando a proteção trabalhista por vias administrativas. Isso ocorre, principalmente, no setor da tecnologia.
O impasse atual demonstra que o foco político e empresarial segue concentrado em manter os níveis de entrega para o mercado global a qualquer custo.
Sociologia do Esgotamento
Sociologicamente, o debate expõe uma mudança geracional profunda nos valores da sociedade coreana.
As gerações anteriores priorizavam o crescimento nacional e a estabilidade financeira institucional. Já os jovens de hoje, demandam um equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Expressões locais que circulam nas redes sociais refletem o esgotamento diante da alta competitividade e do custo de vida elevado nas grandes metrópoles como Seul.
A solução para a crise exige reformas estruturais que modifiquem a dinâmica interna das corporações, reduzam a desigualdade de gênero no mercado de trabalho e combatam a pressão social pelo sucesso acadêmico e profissional a qualquer custo.
Até porque, enquanto as lideranças tentam responder à crise demográfica com paliativos como subsídios financeiros imediatos para novos nascimentos ou incentivos habitacionais, as estruturas que geram o esgotamento profissional da juventude permanecem blindadas.
O futuro da Coreia do Sul depende agora da capacidade de seus líderes políticos desenharem um modelo onde a produtividade não inviabilize a renovação social.
Diante de medidas burocráticas que apenas adiam o problema, o cenário deixa um questionamento crucial: como garantir a economia do amanhã se a lógica atual do mercado consome a geração responsável por esse futuro?

