Enquanto as gigantes dominam o K-pop, o governo sul-coreano aposta em pequenas agências para descobrir os próximos fenômenos globais
Por trás dos números impressionantes do K-pop, existe uma realidade que raramente ganha destaque. Enquanto alguns artistas lotam estádios ao redor do mundo e lideram rankings internacionais sob o comando das maiores empresas do setor, centenas de grupos estreantes enfrentam uma corrida desigual para tentar sobreviver em uma das indústrias mais competitivas do entretenimento.
O Ministério da Cultura, Esportes e Turismo, em parceria com a Korea Creative Content Agency (KOCCA), anunciou o lançamento do projeto “Global Leap Support for Small and Medium-Sized Agencies”, uma iniciativa inédita criada para apoiar pequenas e médias agências de entretenimento na expansão internacional de seus artistas.
A proposta nasce de um reconhecimento que, até pouco tempo atrás, era discutido principalmente entre especialistas e fãs mais atentos, como o sucesso global do K-pop está cada vez mais concentrado nas mãos de poucas empresas.
Dados divulgados pelo próprio Ministério revelam a dimensão dessa disparidade. Enquanto grandes agências investem, em média, mais de 43 bilhões de won por ano na produção musical de seus artistas, empresas menores trabalham com cerca de 1,49 bilhão de won. A diferença também aparece nos palcos internacionais, onde grandes companhias realizam, em média, mais de 80 apresentações no exterior por ano, enquanto pequenas e médias empresas chegam a apenas quatro.
Diante desse cenário, o governo classificou essas agências menores como a “espinha dorsal” da indústria do K-pop e destacou que o crescimento sustentável do setor depende diretamente delas.
A iniciativa selecionará dez empresas por ano, que poderão receber até 300 milhões de won anuais (aproximadamente R$1,2 milhão) durante um período de até três anos, desde que apresentem resultados e cumpram as metas estabelecidas pelo programa.
O investimento poderá ser utilizado em diferentes etapas da expansão internacional, como produção de álbuns, gravação de MVs, campanhas de marketing, showcases, contratação de equipes locais, aluguel de espaços para apresentações e estratégias específicas para mercados estrangeiros.
Na prática, trata-se de oferecer às pequenas agências oportunidades que, muitas vezes, eram limitadas pela falta de recursos.
Entre os primeiros selecionados estão nomes que já vêm chamando a atenção do público, como xikers, da KQ Entertainment; RESCENE; 82MAJOR; Big Ocean; 8TURN; X:IN; USPEER; Can’t Be Blue; KIIRAS e TUNEXX.

Cada grupo apresentou um plano diferente para ampliar sua presença global. O RESCENE, por exemplo, utilizará o apoio para participar do KCON LA. Já o xikers pretende fortalecer suas atividades no Japão por meio de um novo mini álbum e projetos unitários. O TUNEXX levará suas atividades até a Índia, com uma apresentação especial em Mumbai e a gravação de um videoclipe no país. Enquanto isso, o Can’t Be Blue pretende expandir sua atuação internacional após ganhar visibilidade com sua seleção para o programa Spotify RADAR.
Mais do que um incentivo financeiro, o projeto representa uma mudança simbólica na forma como a Coreia do Sul enxerga o futuro da Hallyu.
Por muitos anos, o K-pop foi apresentado ao mundo através das chamadas “Big 4” — HYBE, SM Entertainment, JYP Entertainment e YG Entertainment. Embora a contribuição dessas empresas para a expansão do gênero seja inegável, a concentração de recursos e visibilidade fez com que muitos artistas talentosos sequer tivessem a chance de alcançar o mercado internacional.
Ao investir diretamente em agências menores, o governo reconhece que os próximos grandes nomes do K-pop podem surgir de lugares inesperados.
“Embora o K-pop tenha se tornado parte da cultura dominante global, o crescimento sustentável exige o desenvolvimento das pequenas e médias agências, que são a espinha dorsal da indústria. Esperamos que esta iniciativa crie mais um milagre entre as empresas menores“, afirmou Choi Seonghee, diretora da Divisão de Conteúdo e Indústria de Mídia do Ministério da Cultura.
Em uma indústria frequentemente marcada pela competitividade extrema, o programa surge como um lembrete de que o talento nem sempre anda lado a lado com grandes investimentos. Muitas vezes, o que falta não é potencial, mas oportunidade.
E talvez seja justamente aí que esteja a aposta mais interessante desse projeto, abrir espaço para que a próxima história de sucesso do K-pop não precise nascer dentro de uma gigante do entretenimento, mas possa surgir de uma pequena agência com um sonho grande o suficiente para conquistar o mundo.

