Texto: Alberta Figueirêdo
Revisão: Giovanna Baroni
Design: Duda Curvelo
Existe uma cena no k-drama “Perfect Crown” que, dependendo de com quem você conversa, é só um detalhe de figurino ou o fim do mundo. A coroa usada na cena da coroação tem nove adornos de jade, quando, segundo os protocolos históricos coreanos, deveria ter doze. Parece pouca coisa, não é? Mas a Comissão de Mídia e Comunicações da Coreia do Sul está avaliando se recupera os fundos públicos investidos na produção por causa disso. Fundos públicos. Por uma coroa fictícia, em um reino fictício, numa monarquia constitucional que nem existe.
“Perfect Crown” deixa claro que é ficção. Os protagonistas Seong Huiju (IU) e o grão-príncipe Ian (Byeon Woo Seok) vivem numa realidade alternativa, inventada, que não pretende ser um documentário do período Joseon, a última dinastia imperial da Coreia antes da anexação do território coreano ao império japonês em 1910. E, mesmo assim, parte do público apresentou reclamações formais, especialistas em história foram convocados para opinar, e a equipe precisou pedir desculpas publicamente. O drama terminou com pico de 13,8% de audiência nacional e ainda assim está no centro de uma crise.
Mas isso não é exatamente novidade no mundo dos k-dramas. Em 2021, “Snowdrop” também teve sua cota de cancelamento público na internet sul-coreana. O drama da JTBC se passa em 1987, durante o movimento pró-democracia, mas com um protagonista que era um espião norte-coreano. A produção repetiu exaustivamente: é ficção, os personagens são fictícios, as instituições são fictícias. Não adiantou. Mais de 300 mil pessoas assinaram uma petição pedindo o cancelamento, patrocinadores abandonaram o barco, e pesquisadores coreano-americanos escreveram carta aberta à Disney+ — plataforma que adquiriu os direitos de streaming global da obra — pedindo supervisão histórica nos conteúdos. O argumento central era simples e poderoso: pessoas reais morreram acusadas falsamente de serem espiãs. Fazer disso um pano de fundo romântico dói, apesar de qualquer aviso de ficção na tela.
O que está acontecendo aqui não é hipersensibilidade, embora às vezes pareça. É que esses acontecimentos históricos, na Coreia do Sul, ainda são feridas abertas. O período Joseon, a colonização japonesa, a ditadura militar, a divisão das Coreias, isso não é folclore distante. É memória viva, família, identidade. Quando uma ficção usa esses elementos como cenário, o público não consegue — e talvez não devesse — desligar completamente a consciência histórica.
O problema é que a ficção precisa de liberdade para existir. Exigir precisão documental de um drama romântico é como processar o autor de um romance histórico por não ter citado as fontes. A arte interpreta, reinterpreta e distorce com propósito. Sempre fez isso. O que “Perfect Crown”, “Snowdrop” e tantos outros enredos mostram é que existe um contrato implícito e frágil entre a ficção coreana e seu público: você pode inventar, mas não pode parecer que está reescrevendo o que dói. O aviso de ficção na tela resolve o problema legal. Não resolve o emocional.
E talvez seja justamente aí que mora o drama de verdade, na negociação constante entre o que uma história pode imaginar e o que uma memória coletiva consegue suportar ver reimaginado.
Fontes: Centro Cultural Coreano no Brasil / The Korea Herald / The Korea Times

