Texto: Alberta Figueirêdo
Revisão: Adê Moura e Daniela Machado
Design: Cintia Paz
Você já votou em uma premiação, entrou em um mutirão de streaming, colaborou para o projeto de aniversário de um idol ou passou horas atrás daquele photocard específico? Tudo isso faz parte da rotina de quem é fã, mas existe uma pergunta escondida nessas práticas: o que acontece quando as mesmas ferramentas usadas para apoiar um artista passam a ser usadas para defender uma causa ou disputar uma eleição?
Estudos realizados em partes da Ásia mostram haver uma correlação entre a cultura pop e a participação de fãs dela na vida política. Nem todo fã é engajado politicamente e nenhum fandom é igual, mas as práticas desenvolvidas dentro dessas comunidades podem se transformar em ferramentas de participação.
Numa pesquisa publicada em 2021 na Indonésia e na Tailândia, as autoras Amália N. Andini e Ghaziah Nurika Akhni identificaram a presença de fãs de K-pop em ações humanitárias, críticas a leis e participação em protestos, mostrando como práticas de fandom podem ser utilizadas para além do entretenimento. A lógica não é tão diferente de um mutirão de votação. Existe uma comunidade, um objetivo, ferramentas digitais, divisão de tarefas e pessoas dispostas a dedicar tempo e atenção, o que muda é a finalidade.
Nas Filipinas, essa lógica chegou diretamente às urnas. Durante a eleição presidencial de 2022, fãs de K-pop apoiaram a então vice-presidente Leni Robredo utilizando recursos que já dominavam dentro dos fandoms: imagens de idols, letras de músicas, fancams, estética visual e redes sociais. Essa abordagem traduziu a política para uma linguagem que aquela comunidade já conhecia.
Christian Go e Leif Andrew Garinto estudaram esse fenômeno e deram a ele um nome: civic stanning, ou apoio cívico (Tradução livre). Em artigo publicado na revista Signs and Society, os pesquisadores analisaram como fãs filipinos transformaram signos familiares do K-pop em mensagens políticas e formas de participação eleitoral.
A expressão ajuda a entender uma mudança importante: aqueles jovens fizeram política a partir da experiência de ser fã.
Em Taiwan, a relação apareceu na defesa da própria democracia. Um estudo de Ming-sho Ho e Shuling Huang, publicado em setembro de 2026, acompanhou fãs de K-pop envolvidos em dois movimentos: a Bluebird Action ou Ação Pássaro-Azul , em 2024, e a campanha Great Recall ou Grande Movimento de Revogação de Mandatos, em 2025. Os pesquisadores analisaram como práticas e valores desenvolvidos dentro dos fandoms foram levados para essas mobilizações.
O próprio título do artigo resume essa relação: “Só protegendo a democracia podemos continuar perseguindo nossos ídolos”, (Tradução livre). Nesse caso, a política não apareceu simplesmente porque os fãs decidiram apoiar uma candidatura. Ela passou a ser percebida como parte das condições que permitem viver a própria cultura de que gostam.
A influência também pode ocorrer no sentido contrário ao que se imagina. O BTS é um dos exemplos mais conhecidos de artistas que utilizam sua visibilidade para falar sobre questões sociais, mas uma pesquisa de Wonseok Lee e Grace Kao sobre o grupo e o ARMY durante os protestos do Black Lives Matter ou Vidas Negras Importam, em 2020, mostra que essa relação não funciona em uma única direção.
Fãs negros do fandom chamaram atenção para questões de racismo dentro da própria comunidade e pressionaram o grupo e outros fãs a se posicionarem. Fãs também estabelecem expectativas, cobram posicionamentos e disputam os significados associados aos artistas que admiram.
Mas nem todo fandom quer entrar na política. Uma pesquisa de Hannah Poon, publicada em 2025, entrevistou 15 fãs do grupo hong-konguês MIRROR para investigar a relação entre fandom e política depois dos grandes protestos de 2019 e 2020. Para algumas entrevistadas, o fandom funcionava justamente como uma forma de escapar da frustração, do cansaço e da sensação de impotência produzidos pelo contexto político de Hong Kong.
E o Brasil não fica de fora. Nas eleições de 2022, fandoms brasileiros, especialmente comunidades de K-pop, utilizaram estratégias que já faziam parte de sua rotina para mobilização política. Essa experiência voltou a ganhar força em 2026 para a eleição presidencial com o movimento Fandoms com Lula, o qual reúne fãs de diferentes artistas como BTS, Stray Kids, BLACKPINK, MONSTA X, TWICE e EXO, que passaram a utilizar suas próprias redes sociais e estruturas de comunicação para ampliar o alcance das mensagens de apoio ao atual presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva.
E então voltamos ao photocard. À primeira vista, é apenas uma fotografia que cabe na carteira. Mas o photocard existe dentro de uma indústria que transformou o vínculo afetivo entre artista e público em possibilidade de consumo.
A troca de photocards cria relações entre fãs, e o mesmo vale para álbuns, lightsticks, banners e projetos organizados por fãs. O fandom consome cultura, mas também produz cultura: cria regras, estabelece valores, arrecada dinheiro, distribui informação e decide quais mensagens merecem atenção.
É justamente aí que a relação entre fandom e política fica mais interessante.
Isso não significa que todo fã tenha a mesma posição política. Fandoms também reproduzem conflitos, nacionalismos, preconceitos e comportamentos tóxicos. Uma comunidade pode mobilizar milhares de pessoas para uma causa solidária e, ao mesmo tempo, excluir ou atacar quem discorda dela. Compartilhar uma mesma posição política não é um requisito para fazer parte de um fandom. O que existe são ferramentas de mobilização.
A experiência de fandom ensina pessoas a encontrar outras pessoas, dividir tarefas, produzir conteúdo, disputar atenção, arrecadar dinheiro, criar campanhas e fazer uma mensagem circular. Essas habilidades podem ser utilizadas para conseguir mais streams para uma música, levantar dinheiro para um projeto de aniversário, defender um artista ou participar de uma mobilização política.
A causa muda. A capacidade de organização permanece.

