Lançado nesta sexta-feira (20), o quinto álbum de estúdio do BTS, “ARIRANG”, chega como um marco na trajetória do grupo. Com 14 faixas, a obra se divide em duas metades: a primeira mais forte, crua, herdeira do início da carreira hip-hop do grupo, e a segunda mais introspectiva e melódica, separadas pelo interlúdio “No. 29” que usa o som do Sino Sagrado do Rei Seongdeok (Tesouro Nacional nº 29).
A faixa de abertura, “Body to Body”, mistura a melodia do canto folclórico tradicional “Arirang” ao ritmo do pop/rap dos anos 2000, uma fusão que já estabelece a dualidade central do álbum: honrar as raízes enquanto se avança. A faixa estabelece o tom da primeira metade: suas origens (e sua identidade coreana).
“Hooligan” segue com batidas fortes e refrão viciante. A música celebra a liberdade de se entregar ao caos e é onde podemos vê-los em seu momento mais próximos do rap old school do BTS.
“Aliens” mistura hip-hop e R&B com uma letra que brinca com a ideia de ser “extraterrestre” em um mundo que ainda ‘estranha’ o fenômeno BTS. Um dos momentos mais marcantes da música acontece no verso do RM, “Com licença, Sr. Kim Gu, diga-me como se sente” no qual ele cita o ativista da independência coreana, cujo sonho era de uma Coreia que se tornasse referência cultural global. A faixa é um dos momentos mais explícitos de afirmação cultural do álbum.
“FYA” traz a energia do fogo ao álbum. É definitivamente uma faixa animada e com um refrão chiclete reforçando o clima festivo e explosivo. É uma das canções que podemos ver um experimento vocal dos integrantes da vocal line.
Em “2.0”, onde o grupo aborda diretamente o seu caminho, a posição do BTS dentro de uma indústria tão competitiva, e que é, ainda, tão fechada: “Sim, dizer ‘seja como BTS’ parece fácil, né? Mas quem realmente continua pulando o obstáculo como nós fazemos toda vez? Parece engraçado, mas honestamente, não tem graça nenhuma 10 anos? Não chega nem perto.” A faixa capta o momento em que, após romperem de sua bolha, eles descobrem que o espaço além dela é ao mesmo tempo libertador e desorientador.
“No. 29”, como falado anteriormente, é o interlúdio que separa as duas metades sonoras e significativas, do álbum, constituída unicamente pelo som do Sino Sagrado do Rei Seongdeok (Tesouro Nacional nº 29). A colaboração que os artistas fizeram com o Museu Nacional da Coreia permitiu o uso da gravação em alta definição.
A faixa-título, “SWIM”, é cantada inteiramente em inglês e traz a mensagem de avanço constante: “Nadarei para a frente sem parar, mesmo nas ondas da vida”. Uma metáfora poderosa para um grupo que sofreu constantemente com empecilhos e “pausas” em sua carreira, seja por questões de oportunidade, pela pandemia ou pelo serviço militar.
“Merry Go Round” traz uma melodia melancólica, abordando o ciclo sem fim da rotina. “Não consigo sair desse carrossel, Ele me faz girar, Eu faço o meu melhor, mas não consigo desacelerar”. É um dos momentos mais vulneráveis do álbum.
“NORMAL” desconstrói o que significa viver sob os holofotes, tratando a fama como uma substância química que vicia e consome. A letra expõe a dualidade entre o que é apresentado ao público e o que é vivido nos bastidores. No refrão, o pedido “Mostre-me ódio, mostre-me amor, me torne à prova de balas” faz uma brincadeira direta com o nome do grupo: Bangtan Sonyeondan, que significa “Escoteiros à Prova de Balas”.
“Like Animals” propõe uma entrega total do ser, como se apenas seguindo o instinto fosse possível preencher o vazio deixado pelo excesso de racionalidade.
reforça a ideia de que o grupo não pode ser domesticado por expectativas externas.
“they don’t know ’bout us” traz à tona as narrativas que tentam reduzir o sucesso do grupo a uma fórmula pronta: “Todo mundo ouve a história que quer ouvir, ‘Eles estouraram por causa disso’, é, deve ser”. É uma defesa da relação entre o BTS e seu exército de fãs, mas também reflete a dificuldade que eles têm de mostrar vulnerabilidade, o próprio medo de desapontar. O segundo verso aprofunda a crítica: “‘Eles são especiais, entre os asiáticos’”, no qual eles respondem “Uh, a gente não se identifica / Somos só sete pessoas”, e, quando alguém sugere que “mudaram”, a resposta é direta: “nos sentimos do mesmo jeito, merda”.
“One More Night” traz atmosfera mais sensual e fala sobre o desejo de prolongar um momento de fuga da realidade. “Fantasy, it’s a fantasy”, sustenta a ideia da transição entre o sonho e o medo de acordar.
Em “Please”, o BTS aborda o medo da separação, seja entre os membros, entre o grupo e os fãs, ou diante das pressões externas. “Quando o mundo tentar nos separar / darei mais um passo em sua direção” sintetiza o compromisso de resistir junto.
“Into the Sun” é a faixa de encerramento que carrega a complexidade dos sentimentos que o álbum evoca. No refrão, “Você chama, eu corro, Dias escuros, e encontro o sol, Não me importa quão longe, Apenas espere amanhecer”, a promessa é de que, mesmo nos dias escuros, a aurora virá. “Eu te seguirei até o sol”, dita de forma repetida, é uma promessa de que, mesmo sem saber o que vem depois, a jornada continua lado a lado. É o ponto de chegada que se transforma em novo ponto de partida, uma promessa de continuidade entre eles e quem os acompanha, que atravessa o ciclo do dia, exatamente como o “ARIRANG” chegou depois de um longo período de incertezas e de espera.
As 14 canções do álbum formam um documento de um grupo em uma nova era e que possui o trabalho de sustentar um legado enquanto permanece presente o suficiente para criar novos.

