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HIT! na Bienal: Escritora Hwang Bo-reum fala sobre propósito de sua obra, começo de carreira e carinho pelos fãs brasileiros

Texto: Carol Tomé e Virginia Oliveira
Design: Darlís Santos

São Paulo, 17 de setembro de 2024.

No sábado (14) aconteceu o penúltimo dia da 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. O evento esteve presente no Distrito Anhembi, zona norte da cidade, entre os dias 6 e 15 de setembro. 

E para abrilhantar o final de semana dos fãs de literatura coreana, tivemos a presença ilustre da escritora Hwang Bo-reum, responsável pelo sucesso “Bem-vindos à Livraria Hyunam-dong”, seu primeiro romance e obra de ficção de cura. O qual, diga-se de passagem, foi o terceiro livro mais vendido da editora Intrínseca durante a Bienal

Essa foi a primeira vez dela no Brasil e a HIT! esteve presente na palestra que a autora ministrou, chamada “Bem-vindos à livraria Hyunam-dong: Livros que curam”, a qual contou com a mediação de Paulina Cho, co-fundadora da livraria AIGO.

Acompanhe os destaques dessa conversa inspiradora: 

Hwang Bo-reum falando ao microfone no espaço Arena Cultural (Créditos: foto/Carol Tomé)

Para abrir o bate-papo, Paulina perguntou algo que a autora já ouviu algumas vezes: “Você se parece com a sua escrita?”, um questionamento que faz referência a uma passagem de “Bem-vindos à livraria Hyunam-dong”. Em relação a  isso, Hwang Bo-reum respondeu que depende. 

Ela disse que é possível encontrar alguns de seus valores pessoais na obra, mas acredita que não há a possibilidade de demonstrar quem se é em apenas um livro. Sem contar que se trata de um romance, ou seja, a história de outra pessoa (no caso, da personagem). No fim, ela concluiu que é 70% parecida com seu livro. 

Transição de carreira 

Hwang Bo-reum se formou em ciências da computação e trabalhou como engenheira de software para uma das gigantes sul-coreanas da tecnologia, a LG, um fato bem curioso. Por isso, Paulina indaga como foi essa transição.

A autora contou que, apesar de áreas distintas, percebeu similaridades. Como engenheira, lidava com a linguagem em códigos numéricos e na escrita também trabalha com a linguagem, mas agora com as palavras. 

Em certo ponto de sua vida, quis se tornar escritora e assim buscou esse caminho, algo simples. Ela fez algumas tentativas, falhou algumas vezes até que nasceu seu primeiro romance.

Desenvolvimento de “Bem-vindos à livraria Hyunam-dong”

Capa de “Bem-vindos à livraria Hyunam-dong” (Créditos: divulgação)

Sobre o enredo, que é concentrado num ambiente de uma livraria, ela explica que na Coreia do Sul existem muitas livrarias de bairro e ela frequenta esses ambientes para conversar sobre seu livro e percebe que esses lugares são de pessoas que trabalham de maneira autônoma, o que é um desafio. 

Mesmo que a atividade seja um comércio dentro desse sistema capitalista que vivemos, ela fala que são lugares públicos que desempenham um papel importante para a comunidade. Por isso, ela sente vontade de agradecer quem trabalha no meio — e essa fala da autora emocionou especialmente a Paulina, visto que ela é co-fundadora da livraria AIGO no bairro do Bom Retiro. 

Agora, em relação ao processo de finalização, algo que foi dúvida até mesmo do público, Hwang relata de forma prática que ao terminar de escrevê-lo apenas salvou em seu computador e deixou lá por cerca de um ano. Até que decidiu publicar em uma plataforma online chamada Kakao Brunch, porém, não obteve grandes reações. 

Algum tempo depois aconteceu um concurso dentro do site, ela inscreveu a história e conquistou o primeiro lugar. Depois disso saiu uma versão digital e entraram em contato com ela para publicar o livro físico. 

Pela maneira que a escritora explicou os processos, deu para notar que ela aprecia aquilo que é simples e direto ao ponto. Disse que seu objetivo é que os leitores, jovens ou velhos, com muita ou pouca escolaridade, consigam compreender tudo o que ela quer dizer. 

O que é Healing Fiction

Healing fiction ou em português, ficção de cura, é um gênero literário que apresenta os livros como um espaço seguro e extremamente reconfortante para quem os lê. São cenários conhecidos e acolhedores, com personagens empáticos e que fazem verdadeira companhia ao leitor.

Muitas vezes esses livros tratam de temas cotidianos, como luto, depressão, auto aceitação ou momentos da vida dos protagonistas. São histórias consideradas mais calmas, porém com um impacto emocional às vezes mais forte. 

Perguntada se o livro se encaixava ou não nesse gênero, a autora respondeu que quando começou não conhecia o termo, só depois de publicá-lo, e vendo a reação dos leitores, que percebeu a conexão. Via também pelos fãs estrangeiros e pela resposta deles que mesmo com diferenças culturais, conseguimos gostar das mesmas coisas. 

Outro ponto citado por Hwang é que na Coreia do Sul existe competição e senso de urgência, o que é descrito pela expressão “빨리빨리 (pali-pali)” , que significa algo rápido, então é difícil ter tempo para o autoconhecimento. 

Para ela existe até uma resistência para contar suas sobre dificuldades e emoções. Então para os coreanos o livro poderia servir de consolo para aqueles que não conseguem falar de suas memórias. Independente de sua nacionalidade todos precisam de uma mensagem de apoio e a autora acredita que a obra atingiu esse objetivo. 

Em um complemento à pergunta anterior, Paulina questionou Hwang sobre o fato de que a maioria dos livros de healing fiction são escritos e consumidos por mulheres, e qual era a opinião da autora sobre. Ela disse que era uma pergunta que recebia pela primeira vez e achou interessante. 

Em sua opinião, na Coreia do Sul do passado, havia mais escritores homens. Agora esse cenário mudou, pois as mulheres não só estão escrevendo como lendo mais. Por isso ela disse que as leitoras querem um olhar mais feminino nas histórias, esse público quer ser ouvido e retratado. 

Onda Hallyu e mercado literário

Em determinado momento Paulina comentou como a onda hallyu afeta o Brasil e o mundo, e questionou a opinião da autora sobre esse fenômeno. Hwang disse que antes de receber essa pergunta, já acompanhava esse movimento da hallyu e o aumento da popularidade de K-dramas e do K-pop. 

Tais atos despertam a curiosidade do público internacional para aprender a língua coreana,  por isso acredita que esse olhar positivo faz bem para a Coreia do Sul e espera que essa atenção também se volte à literatura coreana. Este ano ela tem participado de vários eventos fora de seu país e quando conversa com os leitores, percebe que as pessoas conhecem mais K-dramas e K-pop do que ela. 

Disse que tanto música, quanto K-dramas, não são 100% completos e nenhuma uma obra consegue mostrar toda a diversidade coreana. A hallyu existe apenas há alguns anos, então temos uma nova missão, precisamos nos esforçar para mostrar esse tipo de diversidade que os coreanos possuem. 

Em seguida, a mediadora finaliza ao dizer que seu coração está aquecido ao ver uma autora sul-coreana na Bienal do livro de São Paulo, pois ela como asiática brasileira cresceu com referências norte-americanas e europeias na mídia.

Recomendações especiais

Indo em direção ao final, como de costume, foi dada a oportunidade para a audiência perguntar algo para Hwang. A HIT! aproveitou e pediu à autora para recomendar alguma obra que ajudasse o público a descobrir como a cultura coreana é multifacetada.

Como sugestão ela disse que poderíamos ter mais acesso a literatura coreana que não fosse só de ficção, algo mais voltado para história do país, como as obras do autor Hwang Sok-yong.

Por ela ser uma escritora coreana e ter as palavras como sua ferramenta principal de trabalho, sugeriu o K-drama chamado “Uma Árvore de Raízes Profundas” (2011), disponível no Viki. A história narra o surgimento do Hangul, que é o alfabeto coreano inventado pelo Rei Sejong.

Relação com os fãs brasileiros 

Sem mais questões do público, Paulina perguntou se Hwang gostaria de compartilhar algo já que a palestra havia chegado ao fim. A escritora então revelou que, desde quando começou sua jornada de visitar outros países para encontrar com os leitores, os fãs brasileiros eram aqueles que ela mais queria conhecer. 

Isso porque ela via como os leitores daqui eram os primeiros a comentar, compartilhar seus sentimentos ao ler seu livro e mandar mensagens de apoio. Hwang disse que conseguiu sentir todo o carinho do público brasileiro. Também afirmou que estava grata pela presença de todos e por poder vê-los pessoalmente. 

Conecte-se à autora e à mediadora no Instagram: 

Hwang Bo-reum: @__bo_reum
Paulina Cho: @paulinacho

Fonte: (1)

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