Entrevista, booking, edição, tradução: Guto Togo
Design: Jessica Fernandes
Shye é uma artista singular que construiu sua carreira à base de autenticidade e autossuficiência. Com um som que flutua entre suavidade e aspereza, ela consegue traduzir emoções complexas que as palavras muitas vezes não alcançam. Desde o primeiro trabalho até os lançamentos mais recentes, a artista evoluiu não apenas tecnicamente, mas também emocionalmente, mantendo a honestidade como norte de seu trabalho.
Reconhecida internacionalmente, Shye também explora a moda como extensão de sua expressão artística e se prepara para novos projetos que prometem revelar ainda mais de sua essência criativa.
Em conversa exclusiva com o Time HIT!, Shye fala sobre a mensagem por trás da sua música, seus momentos mais marcantes, desafios e a visão de uma música que transcende fronteiras.
TIME HIT: Seu som mistura indie pop, dream pop e alt rock de uma forma muito única. Como você descreveria a essência sonora da Shye?
SHYE: Acho que existe tanto suavidade quanto aspereza no meu som. Como eu mesma produzo minha música, tenho a liberdade de explorar os diferentes gêneros que me influenciam. Sempre amei dream pop e shoegaze, mas também a crueza e a atitude do alt rock e do brit pop, então minha música acaba naturalmente existindo em algum ponto entre tudo isso. Gosto do fato de não ser perfeita. Essas pequenas imperfeições fazem as músicas parecerem vivas, humanas e fiéis a quem eu sou.
TIME HIT: Desde o início, você assumiu o controle de todas as etapas da sua produção musical como composição, gravação, mixagem e masterização. O que te motiva a manter esse processo tão pessoal e autossuficiente?
SHYE: Desde o começo, eu estive envolvida em todas as etapas da minha música e, com o tempo, isso se tornou algo que realmente gosto e valorizo. Ser autossuficiente me dá a liberdade de explorar, errar e seguir meus instintos sem depender de ninguém. Se você fica esperando que as coisas sejam feitas, isso pode levar uma eternidade. Ter esse controle significa que consigo transformar minhas ideias em som exatamente da forma como imagino. Dá para ouvir claramente o meu crescimento ao longo dos anos. Cada lançamento registra uma fase diferente de quem eu fui e de quem estou me tornando. Essa evolução é muito pessoal para mim e acredito que permite que os ouvintes se conectem com a pessoa real por trás da música. O processo nem sempre é perfeito, mas essa honestidade é o que o torna significativo.
TIME HIT: Como o seu processo criativo evoluiu desde o seu primeiro EP, “Augus7ine”, até os lançamentos mais recentes como “Shed”, “3am” e “Too Late”?
SHYE: “Augus7ine” foi um período de experimentação, em que eu ia descobrindo as coisas conforme avançava. Eu não tinha nenhum conhecimento prévio de teoria musical ou produção, então foi o começo da minha jornada aprendendo a produzir, confiando nos meus instintos e descobrindo o que soava autêntico para mim. Ao longo dos anos, me tornei mais intencional e mais confiante nas escolhas que faço. No entanto, uma coisa permaneceu constante: faço questão de deixar que as músicas me conduzam e me digam para onde querem ir, em vez de forçar qualquer direção.
Meu setup técnico continua muito simples e bastante portátil. Levo comigo até quando estou no exterior para festivais ou de férias. Nunca se sabe quando a inspiração vai surgir, então quero estar sempre pronta. Talvez eu não tenha os equipamentos mais caros, mas trabalho com o que tenho e descubro novas formas de me adaptar e aprender, isso torna o processo divertido. O que crio soa genuíno e honesto com quem eu sou, e isso importa mais do que qualquer outra coisa para mim.
Minha produção definitivamente melhorou de forma gradual ao longo dos anos. O som está mais encorpado, as emoções mais claras e a produção mais refinada, sem perder essa qualidade crua e pessoal. Cada projeto registra uma fase diferente da minha vida, e esse crescimento é algo que tenho orgulho de compartilhar.
TIME HIT: Você já se apresentou em festivais em países como Japão, Taiwan, Tailândia e também nos Estados Unidos, no SXSW. Qual experiência internacional mais te marcou?
SHYE: Cada show e cada oportunidade significam muito para mim, e poder viajar para lugares diferentes por causa da minha música é algo que nunca tomo como garantido. No entanto, tocar em Manila, em outubro de 2024, me marcou de forma especialmente profunda. Eu estava passando por um período difícil na minha trajetória musical. Me sentia insegura, sem certeza sobre o que queria colocar no mundo e lutando contra muitas dúvidas internas. Eu não sabia se existia espaço para o tipo de música que faço.
Me apresentar naquele festival mudou algo dentro de mim. Conhecer artistas que admiro e sentir o carinho do público me lembrou de que ser fiel a mim mesma é o suficiente. Parece simples, mas é uma das coisas mais difíceis de fazer. Percebi que precisava voltar a confiar nos meus instintos e me reconectar com o amor que tenho por fazer música, sem pensar demais em tudo. O público de Manila foi extremamente apaixonado e acolhedor, e isso realmente me tocou. Por isso, Manila sempre terá um lugar muito especial no meu coração.
Também fiquei muito grata ao público da minha apresentação recente na World Expo Osaka. Não importava que minhas músicas fossem em inglês, o público foi incrivelmente caloroso. Eles estavam esperando desde a passagem de som e ficaram sentados durante 45 minutos do meu show sob o sol da tarde! Fiquei muito positivamente surpresa com essa demonstração de apoio. É um ótimo lembrete de que a música não tem fronteiras.
TIME HIT: Em seu material de divulgação, diz que as suas músicas “dizem o que as palavras não conseguem”. Você poderia compartilhar um exemplo de uma música que nasceu exatamente desse sentimento?
SHYE: Um bom exemplo é a minha música “Cecilia”. Eu a escrevi durante um período difícil da minha trajetória musical, quando eu me sentia muito insegura comigo mesma. Eu não estava me sentindo nada esperançosa, mas queria criar algo que carregasse esperança mesmo assim. Foi quase como um lembrete para mim mesma sobre o futuro e sobre onde eu quero chegar, em vez de ficar presa ao que eu sentia naquele momento. Escrever “Cecilia” foi a minha forma de buscar a luz, mesmo quando eu ainda não conseguia enxergá-la.
A letra tenta expressar essa mistura de desejo, incerteza e uma dor silenciosa, mas a mensagem real vive na emoção da música. Os acordes, as melodias e a atmosfera são, na minha opinião, o que realmente sustentam a canção. Sempre acreditei que uma música pode significar coisas diferentes para pessoas diferentes, e é isso que torna a música tão especial. O sentimento que ela desperta é o que mais importa. Quando escrevo, foco em transmitir a emoção da própria música, em vez de deixar que a letra faça todo o trabalho sozinha. “Cecilia” é uma dessas músicas em que o coração dela vive justamente no espaço onde não há palavras.
TIME HIT: Quando você vê o público reagindo a uma das suas músicas, como essa troca afeta a sua relação com a própria música?
SHYE: Ver o público reagir às minhas músicas sempre me lembra do porquê eu faço música. Quando as pessoas cantam junto, algo que começou em um espaço tão íntimo se transforma em um momento compartilhado. Isso me faz sentir conectada à música de uma nova forma, quase como se eu estivesse vivenciando a canção através das emoções delas também.
Às vezes, meus ouvintes revelam significados que eu nem percebia que estavam ali, ou trazem à tona uma camada diferente da música apenas pela forma como reagem a ela. É interessante ver como pessoas diferentes interpretam a mesma coisa. Isso fortalece minha relação com a música e me lembra que, uma vez lançada, a canção se torna maior do que eu e passa a pertencer a todos que estão na sala. Essa troca é algo que eu valorizo muito. E sou sempre grata por permitirem que minha música ocupe, nem que seja por um pequeno momento, a vida delas.
TIME HIT: Além da emoção, existe alguma mensagem recorrente que você espera transmitir por meio do seu trabalho?
SHYE: Acho que um tema recorrente na minha música é a ideia de perda, mas também a esperança silenciosa que vem depois dela. Muitas vezes existe uma sensação de nostalgia nas canções, não apenas no sentido de olhar para o passado, mas principalmente de refletir sobre momentos que me moldaram e sobre emoções que permanecem muito tempo depois. Acho que escrevo naturalmente sobre esses espaços intermediários: as coisas que superamos, as conexões que sentimos falta e as versões de nós mesmos que ainda estamos tentando entender.
Mesmo quando uma música carrega tristeza, geralmente há um fio de luz atravessando tudo. Quero que minha música lembre as pessoas de que tudo bem sentir profundamente e de que a esperança pode existir até nos lugares mais suaves e frágeis. Esse equilíbrio entre perda e renovação é algo ao qual sempre acabo retornando.
TIME HIT: Você foi a primeira artista de Singapura convidada para a Paris Fashion Week da Chanel. Como a moda se conecta com a sua expressão artística?
SHYE: A moda parece outra forma de storytelling (ideia de transmitir a história) para mim. Ser convidada para a Paris Fashion Week da Chanel foi surreal e abriu meus olhos para o quanto a expressão visual e a música têm em comum. Assim como o som, a moda pode carregar clima, textura e emoção. Sempre gostei de equilibrar suavidade e atitude na minha música. E a moda explora isso visualmente por meio de silhuetas, cores e todos os pequenos detalhes entre eles.
Também sou imensamente grata à Chanel por apoiar minha jornada musical desde o começo. Minha primeira matéria em revista foi com eles, usei Chanel no meu primeiro prêmio global e minha primeira experiência em uma fashion week também foi com eles. Eles fizeram parte de muitos marcos da minha carreira, e isso é algo que valorizo profundamente.
TIME HIT: Você já foi destacada em listas como Forbes Asia 30 Under 30 e Tatler Gen.T Leaders of Tomorrow. Como você enxerga esse tipo de reconhecimento dentro da cena da música independente?
SHYE: Ser reconhecida por plataformas como Forbes Asia 30 Under 30 e Tatler Gen.T é muito gratificante para mim como artista independente, especialmente no cenário musical atual. Isso representa uma pequena parte da indústria formada por artistas que estão dando o seu melhor e escolhendo o caminho independente, mesmo sabendo que ele nem sempre é o mais fácil. É encorajador saber que o trabalho que realizo, desde escrever e produzir até cuidar de tudo o que acontece nos bastidores, é visto e valorizado. Para artistas independentes, todo tipo de apoio faz diferença, e sou grata pela oportunidade de representar o que é possível quando se permanece fiel ao próprio caminho.
TIME HIT: Que conselho você daria a jovens artistas asiáticos que também querem seguir um caminho independente como o seu?
SHYE: Eu seria honesta e diria que esse caminho não é fácil. Todos os dias será necessário fazer uma escolha consciente de continuar. É uma maratona, não uma corrida de curta distância. Mantenha os pés no chão, seja humilde e entenda que sacrifícios precisarão ser feitos. Você pode acabar abrindo mão de certas oportunidades por permanecer fiel a si mesmo e tudo bem. O mais importante é lembrar por que você começou em primeiro lugar: o amor pela música.
Eu diria para continuarem aprendendo, evoluindo e se desafiando, porque o crescimento não acontece por acaso. E mesmo quando tudo parecer incerto, confie que sua dedicação e autenticidade vão te guiar até onde você precisa chegar.
TIME HIT: Você começou sua carreira de forma inesperada, ao vencer o Vans Musicians Wanted com apenas 16 anos. Se pudesse dizer algo para a Shye mais jovem, o que seria?
SHYE: Eu diria para a Shye de 16 anos respirar e aproveitar um pouco mais o momento. Naquela época, tudo aconteceu muito rápido e de forma inesperada. Ganhar o Vans Musicians Wanted praticamente me lançou em um mundo que eu mal entendia. Eu diria para ela continuar curiosa, confiar nos próprios instintos e não ter medo de errar, porque cada erro vai moldar a artista que ela se tornará. Também gostaria que ela soubesse que as dúvidas e os desafios que enfrentaria mais tarde não significam que ela está no caminho errado, eles fazem simplesmente parte do crescimento.
Eu também diria que tenho muito orgulho dela. Naquela idade, ela foi incrivelmente corajosa sem sequer perceber isso, algo que eu não reconheço o suficiente. Escolher escrever, produzir e mixar a própria música em um ambiente majoritariamente masculino exige muita força, especialmente quando se é jovem e se está navegando por um espaço totalmente novo.
Acima de tudo, eu diria que o amor dela pela música vai sustentá-la em todos os momentos. Basta continuar criando, continuar aprendendo e segurar firme esse senso de encantamento. A jornada é maior e mais bonita do que ela imagina.
TIME HIT: Soubemos que há um novo projeto em desenvolvimento. Você poderia nos dar uma dica sobre a direção ou o conceito dele?
SHYE: Um novo projeto definitivamente está em andamento, e tem sido uma verdadeira jornada. Honestamente, uma das mais desafiadoras até agora. Tenho lidado não apenas com a minha própria música e direção criativa, mas também com o estado atual da indústria musical, que às vezes pode ser esmagadora. Por causa disso, esse projeto se tornou muito importante para mim.
Saí da minha zona de conforto para experimentar coisas novas e, nesse processo, aprendi muito sobre mim mesma, tanto como artista quanto como pessoa. Não vou revelar muito por enquanto, mas posso dizer que é, essencialmente, um processo de autodescoberta. Parece um capítulo em que estou conhecendo uma nova versão de mim mesma, e estou animada para que as pessoas ouçam onde essa jornada me levou.
TIME HIT: Quando você tiver a oportunidade de se apresentar no Brasil, qual será a primeira experiência cultural que gostaria de ter?
SHYE: Quando finalmente tiver a chance de me apresentar no Brasil, a primeira experiência cultural que eu adoraria viver seria mergulhar na música local! Sinto que o apreço e a paixão pela música estão profundamente entrelaçados com o dia a dia aí. Eu adoraria ouvir samba ou bossa nova ao vivo, em um ambiente mais intimista, e sentir a energia das ruas. Vivenciar esse calor e essa vibração de perto é algo que realmente espero com ansiedade.
TIME HIT: Falando em Brasil, existe algum artista que você conhece ou com quem gostaria de colaborar no futuro?
SHYE: Na verdade, desde que nos encontramos para a entrevista presencial no Japão, eu reservei um tempo para explorar mais a fundo o cenário musical do Brasil! É impressionante como ele é rico, diverso e expressivo.
Eu adoraria colaborar com artistas que misturam influências tradicionais brasileiras com produção moderna. Acho que seria uma forma muito interessante de aprender sobre a cultura e a história. Virei fã da Ana Frango Elétrico! Adoro como eles criam atmosferas tão vívidas na música. Estou sempre aberta a explorar novos sons e aprender com culturas diferentes, então colaborar com um artista brasileiro algum dia seria realmente especial!
TIME HIT: Para encerrar, deixe uma mensagem para seus fãs brasileiros que acompanham você à distância.
SHYE: Para meus apoiadores brasileiros: muito obrigada por apoiarem minha música mesmo estando tão longe! Significa muito para mim saber que algo que crio no meu pequeno canto do mundo consegue chegar até aí e se tornar parte da vida de vocês. Espero que um dia eu possa visitar o Brasil e me apresentar pessoalmente, mas até lá, cuidem-se bem e continuem sonhando alto. Envio todo o meu carinho e espero que nossos caminhos se cruzem em breve!
Confira o conteúdo exclusivo da entrevista em video no Instagram da HIT! Magazine.
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