Design: Laís Batista
Natal, 11 de julho de 2026.
Existe um motivo para algumas roupas permanecerem na memória coletiva por décadas. O vestido preto de Audrey Hepburn em “Bonequinha de Luxo” virou sinônimo de elegância antes de muita gente saber qual era o filme, e o mesmo vale para o vestido rosa de Marilyn Monroe na performance de “Diamonds Are a Girl’s Best Friend”. Em casos assim, o figurino sobrevive ao filme – e até ao tempo. Às vezes, uma única peça basta para que um personagem conquiste seu lugar na cultura pop.
Nos K-dramas, essa força costuma ser levada ainda mais a sério. Muito além de vestir os atores, o figurino funciona como uma extensão silenciosa do roteiro: ele comunica quem cada personagem é, revela tensões internas, marca transformações ao longo da trama e prepara o olhar do público para conflitos que o texto ainda não verbalizou.
Em uma indústria conhecida pela atenção aos detalhes, roupas, acessórios e paletas de cores raramente aparecem por acaso. É justamente por isso que, em produções de fantasia, dramas históricos ou histórias contemporâneas, alguns títulos fizeram da moda uma parte essencial da experiência. Em certos casos, o guarda-roupa é tão importante quanto os próprios personagens.
1. Hotel del Luna (2019)
Jang Man-wol, a gerente imortal do hotel-purgatório, é também um desfile ambulante. A estilista responsável pelo guarda-roupa, Noh Ju-hee, escolheu peças vintage e cores primárias de propósito, pensando em traduzir visualmente a personalidade forte da personagem, e nenhuma roupa se repete do início ao fim da série.
Os looks misturam hanbok tradicional com peças de alta-costura contemporânea, e esse contraste não é gratuito: ele resume a própria existência da personagem, presa entre séculos diferentes, sem pertencer completamente a nenhum deles. As cores fortes e os cortes extravagantes acompanham as oscilações de humor de Man-wol. Raiva, melancolia e ironia funcionando quase como legenda emocional para quem assiste. Cada figurino dela parece dizer: estou aqui há muito tempo e ainda não me cansei de chamar atenção.
2. Tudo Bem Não Ser Normal (2020)
Ko Moon-young, escritora de livros infantis com traços sombrios, usa vestidos que parecem ter saído de um conto de fadas distorcido. A diretora de figurino, Cho Sang-kyung, levou um prêmio no Baeksang Arts Awards justamente por esse trabalho, e parte das peças mais marcantes da personagem saiu das mãos da estilista coreana Minju Kim. Saias armadas, cores vivas, silhuetas quase infantis, tudo isso funciona como mecanismo de autodefesa: por trás da estética gótica exagerada está uma mulher que aprendeu a se proteger atrás da própria extravagância, escondendo uma vulnerabilidade que ela nunca verbaliza.
Conforme a trama avança e Moon-young começa a lidar com seus traumas, o figurino acompanha essa abertura: as roupas ficam mais simples, mais próximas do real. A moda, nesse caso, é armadura.
3. É Tudo Meu (2021)
Numa trama sobre as mulheres de uma família chaebol¹, o figurino se torna sinônimo de poder, funcionando literalmente como armadura para as duas protagonistas. Jung Seo-hyun, sempre alerta e pronta para proteger a família de qualquer escândalo, raramente se permite uma cor viva, preferindo cortes retos e tons neutros que escondem qualquer fragilidade. Seo Hi-soo, que veio de fora e entrou para a família, equilibra peças clássicas com toques mais coloridos, um respiro que a diferencia do núcleo mais rígido da casa. Não há excesso aqui. A elegância contida das roupas reflete exatamente o tipo de poder que essas mulheres exercem: silencioso, calculado, difícil de contestar.
4. Rainha das Lágrimas (2024)
Hong Hae-in carrega um guarda-roupa de herdeira: peças de grife, acabamento impecável, nada fora do lugar. Os tons frios e os cortes estruturados que dominam seus looks no início da série não são só estética de chaebol¹, são cuidadosamente planejados e transmitem uma imagem de absoluto controle.
Quando o diagnóstico chega e o casamento começa a ruir, as escolhas de roupa mudam junto: menos rigidez, mais textura e calor nas cores. É uma transformação sutil, mas extremamente eficaz. Enquanto o roteiro revela seus sentimentos aos poucos, as roupas mostram que aquela mulher aparentemente intocável já não consegue esconder todas as suas fragilidades.
5. A Lição (2022)
Poucos dramas usam tão bem o contraste de classes através da moda quanto “A Lição“. Os responsáveis pelo bullying que marcou a vida de Moon Dong-eun circulam por ambientes de luxo usando roupas que comunicam privilégio com naturalidade. Já a protagonista constrói uma imagem muito mais discreta e contida, especialmente nos primeiros episódios.
Conforme seu plano de vingança avança, porém, sua aparência também muda. Não se trata de uma transformação ligada à vaidade, mas ao controle. Aos poucos, Dong-eun passa a ocupar espaços dos quais antes era excluída, e o figurino registra essa mudança de posição com uma precisão quase cirúrgica.
+1: As Mangas Vermelhas (2021)
Se todos os dramas desta lista usam o figurino para contar histórias, “As Mangas Vermelhas” talvez seja o exemplo mais completo de como a moda pode funcionar como linguagem narrativa.
Ambientada durante a dinastia Joseon, a série utiliza os hanboks não apenas como elemento estético, mas como parte fundamental da construção política e social daquele universo. Cores, tecidos, bordados e acessórios revelam hierarquias, alianças e mudanças de status antes mesmo que os personagens expliquem o que está acontecendo.
A riqueza visual impressiona, mas o verdadeiro mérito está na forma como cada escolha de figurino ajuda a compreender a dinâmica da corte. Em um ambiente onde posição social significa tudo, as roupas se tornam uma ferramenta de leitura da narrativa.
Por isso, “As mangas vermelhas” merece ocupar o espaço de “+1” desta lista. Não apenas pela beleza dos figurinos, mas pela maneira como eles se integram ao enredo e demonstram que, em certos dramas, as roupas não acompanham a história – elas ajudam a contá-la.
¹ Os chaebols são grandes conglomerados empresariais sul-coreanos que serviram como ferramentas estratégicas para a industrialização e ascensão tecnológica do país através de uma estreita coordenação com o Estado. Estruturalmente, eles se definem por três pilares: o comando centralizado por famílias fundadoras, a organização em formato de holding e uma atuação amplamente diversificada em diversos setores econômicos.
Fontes:
SANTOS, Murilo Batista dos. Chaebol: o papel dos grandes grupos privados na Coreia da terceira revolução industrial . Orientação de Célio Hiratuka. Campinas, SP: [s.n.], 2015. TCC. (1 recurso online ( p.)), il., digital, arquivo PDF. Disponível em: https://hdl.handle.net/20.500.12733/1628051. Acesso em: 15 jun. 2026.
PIRES MARQUES, Janote; SANTO DE ALMEIDA, Regina Célia. Figurino e cinema: uma experiência didática na formação acadêmica do designer de moda. Projetica, Londrina, v. 9, n. 1, p. 39–52, 2018. DOI: 10.5433/2236-2207.2018v9n1p39. Disponível em: https://ojs.uel.br/revistas/uel/index.php/projetica/article/view/30554. Acesso em: 15 jun. 2026.
SOARES, Luciana Almeida; ALÉCIO, Manuela Campos Machado. MODA E CINEMA: a influência do figurino na caracterização do personagem. Art&Sensorium, [S.L.], v. 4, n. 2, p. 117-131, 19 dez. 2017. Universidade Estadual do Parana – Unespar. http://dx.doi.org/10.33871/23580437.2017.4.2.117-131. Acesso em: 15 jun. 2026.

